5. Acessibilidade na Web: Um Caso Prático

Na aula de 16 de Outubro de 2012 tivemos o prazer de ouvir uma palestra de António Silva (FLUP-SAED). Foi graças a este utilizador invisual que fiquei a perceber aquilo que é ter este tipo de deficiência e ter que interagir com dispositivos tecnológicos no quotidiano (contexto de uso adverso). Fiquei absolutamente deslumbrada com o à vontade que o António tinha ao manusear o seu telemóvel e o seu computador, algo que pessoas com a visão a 100% muitas vezes não conseguem fazer.

O principal intuito do António ao dar-nos a palestra era que entendêssemos como é que os leitores de ecrã, como o JAWS, funcionam e como é que auxiliam os invisuais. Assim que o utilizador começou a mexer no teclado para encontrar o ícone do browser, que lhe iria permitir o acesso à Internet, começámos a ter uma ideia daquilo que é o JAWS: uma voz metalizada, impessoal, pouco percetível e fugaz, que resultava da leitura do conteúdo textual dos itens do ambiente de trabalho. Fiquei, de imediato, surpreendida com a capacidade de interpretação daquele som pelo António; nenhum elemento da turma estava a perceber o que aquela voz menos ele, que já estava muito habituado com aquele software.

Na web, o JAWS faz a leitura de ecrã através das alt-tags contidas no código HTML. Assim, o primeiro website que o António visitou foi o Google (http://www.google.pt/), onde não foram encontradas muitas dificuldades no acesso porque, mais uma vez,  já estava muito habituado. Foi aqui que o António nos falou dos problemas que tinha em encontrar informações relevantes na Internet pelo simples facto uma enorme quantidade de sites não cumprirem os requisitos mínimos no âmbito da acessibilidade e que, por isso, perdia muito mais tempo do que qualquer um de nós, tendo mesmo, por vezes, de pedir ajuda a alguém.

Em boa verdade, de acordo com o eXaminator (http://www.acessibilidade.gov.pt/webax/examinator.php), o Google não passa na bateria de testes de tipo 1, ou seja, não respeita os princípios e as diretrizes base de acessibilidade na web. Deste modo, apesar de as imagens no site fazerem uso do atributo “alt” para afixar a legenda (Princípio  e diretriz 4.1), não são fornecidas alternativas em texto para qualquer conteúdo não textual permitindo, o que impossibilita que o mesmo possa ser alterado noutras formas mais adequadas à necessidade da pessoa, tais como impressão em caracteres ampliados, braille, fala, símbolos ou linguagem mais simples (Princípio 1 e diretriz 1.1). No Google, o destino dos links parece estar claramente identificado e os documentos disponibilizados permitem a validação da notação com a gramática formal publicada. No entanto, a ordem do cabeçalho inicial está trocada e existem elementos obsoletos no código; além disso, são usadas tabelas para formatar páginas, sendo que estas não devem ser utilizadas a não ser que façam sentido em formato linear e são usadas medidas absolutas na página, o que impede os utilizadores com visão parcial de ampliarem ou reduzirem o tamanho dos elementos de acordo com as suas necessidades. Os links presentes no Google encontram-se separados por caracteres imprimíveis, o que é positivo; no entanto, o idioma do site não se encontra especificado, o que desrespeita o Princípio 3, assim como a diretriz 3.1. A página web tem os blocos de informação divididos de modo a haver uma média de 3 palavras por bloco, tem um título adequado (“Google”) e 75% dos seus links estão agrupados em listas, o que é favorável.

De seguida, o António mostrou outros exemplos de websites para que pudéssemos perceber melhor a realidade de um invisual a pesquisar na web; um exemplo gritante foi o website da Rádio Festival (http://www.radiofestival.pt/) que era praticamente inacessível pois a maioria do seu conteúdo estava em Flash. É pela mesma razão que o eXaminator refere a presença de poucos conteúdos passíveis de análise; sendo assim, esta página também não passa a bateria de testes para a prioridade 1. Assim, não são fornecidas alternativas em texto para qualquer conteúdo não textual (Princípio 1 e diretriz 1.1) e não é proporcionado um link  para outra página que tenha o mesmo conteúdo ou funcionalidade mas que use padrões do W3C  para os utilizadores que não podem utilizar esta tecnologia (Flash). Apesar de o título da página estar adequado, o código contém erros de validação, não há uma declaração do tipo de documento (DTD) ou sintaxe e são utilizadas tabelas para controlar a apresentação da página, o que, pelo que já vimos previamente, é inadequado. Por fim, apesar de o idioma da página se encontrar especificado (Princípio 3, diretriz 3.1), as linhas e as colunas que contêm cabeçalhos, não estão devidamente identificadas.

Por último, a pedido do professor, o António visitou o website do P3 (http://p3.publico.pt/); toda a turma revelou curiosidade em saber como é que o JAWS ia interpretar este site pois sabíamos que esta página costuma ter vários conteúdos em Flash; além disso, o site é recente, pelo que poderia ainda não ter tido tempo para se desenvolver adequadamente no âmbito da acessibilidade. De facto, este site  não igualmente passa na bateria de testes do eXaminator para a prioridade 1. Deste modo, nem todas as imagens contêm um atributo “alt” correspondente, o que corresponde a um incumprimento do Princípio 1 e da diretriz 1.1 (todo o conteúdo não textual que é apresentado ao utilizador tem uma alternativa em texto que serve finalidade equivalente, excepto para as situações indicadas abaixo (Nível A)).  Verifica-se também que, num só evento, existem 2 tipos de manipuladores implementados: de tipo rato e de tipo teclado, o que é errado, tendo em conta que os eventos devem funcionar independentemente do dispositivo de entrada (diretriz 1.1). Existem ainda elementos obsoletos na página, são utilizadas medidas absolutas nas folhas de estilo, o código tem erros de validação, há mais do que um cabeçalho principal, existem 10 links com o mesmo texto que apontam destinos distintos e 3 links que não estão separados por caracteres imprimíveis (Princípio 1, diretriz 1.1). No entanto, não são usadas tabelas para formatar a página (são usados estilos CSS para o efeito), há uma declaração do tipo de documento ou sintaxe, o idioma encontra-se definido, todos os campos de edição e áreas de texto contêm caracteres por omissão, existe uma média de 3 palavras por bloco de informação, o título da página é adequado, é usada uma versão XHTML Strict, 68% dos links são agrupados em listas e é proporcionada informação sobre documentos relacionados.

Por fim, importa refletir sobre a acessibilidade na web, nos dias de hoje. De facto, a maioria dos websites não respeita os requisitos mínimos (nível A), o que é, em simultâneo, preocupante e explicável. Em boa verdade, as empresas pretendem agradar à maioria dos utilizadores  recorrendo a conteúdos esteticamente apelativos; a questão é que se esquecem ou ignoram a percentagem reduzida de clientes (ou possíveis clientes) com deficiências, o que causa um sentimento de frustração nos mesmos quando se deparam com uma total inacessibilidade aos conteúdos. Lacunas destas proporções podiam ser facilmente corrigidas com o cumprimento dos princípios e diretrizes base ou então com a criação, por parte de cada empresa, de uma página web, paralela à pré-existente, que cumprisse todos os requisitos propostos pelo W3C; o link para esta página deveria estar presente, de forma acessível, no sítio web primordial, para que o acesso fosse possível.

Para terminar, devo dizer que o António é, sem dúvida alguma, um exemplo a seguir, pela sua coragem, determinação, autonomia e esforço por levar uma vida normal e de qualidade, assim como por nos ter ensinado aquilo que é procurar sem ver.

Bibliografia:

W3C (página consultada a 21 de Janeiro de 2013), “Directrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web (WCAG) 2.0” [em linha]. Disponível em: URL:http://www.acessibilidade.gov.pt/w3/TR/WCAG20/index.html

eXaminator (página consultada a 21 de Janeiro de 2013), “Validador de Acessibilidade Web” [em linha]. Disponível em: URL: http://www.acessibilidade.gov.pt/webax/examinator.php

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