7. A Urbanização do Envelhecimento e os Paradigmas de Interação

Numa definição mais poética, envelhecer é ser criança, jovem e adulto; é ter histórias no bolso e uma caixa de lembranças. Este processo é natural e complexo, afetando todos os seres vivos. Ao longo de vários séculos tem-se verificado, à escala mundial, um aumento da população idosa, fenómeno este que se tem vindo a acentuar ao longo dos últimos anos e que é facilmente explicável devido aos avanços cientifico-tecnológicos no âmbito da higiene, da nutrição e da medicina.

Graças a estes progressos, a esperança média de vida tem aumentado gradualmente: nos anos 50, era de 56 anos, sendo que no final do século XX era de 66 anos e prevê-se que, em 2050 seja de 76 anos, o que certamente representa “um dos maiores desafios da Humanidade devido às suas consequências sociais, económicas e políticas” (JACOB, 2007:15). Em boa verdade, o declínio da natalidade que teve início nos anos 70 fez com que os países não renovassem as suas gerações, o que fomentou o processo de urbanização do envelhecimento que hoje atualmente nos encontramos a vivenciar.

Surge assim o conceito de “terceira idade”, uma intervenção do século XX, bem como vários dados estatísticos que indicam o contínuo aumento desta faixa etária; de acordo com a ONU (2002), a população idosa quadruplicará nos próximos 50 anos e o Eurostat prevê que o número de cidadãos europeus comece a decrescer especialmente devido à falta de nascimentos. Estas estatísticas são, a meu ver, plenamente plausíveis se espreitarmos a realidade europeia, da qual consta uma grave crise económica e de valores, onde prolifera o desemprego e a desmotivação generalizada.

Se fizermos zoom in nos meandros da faixa etária correspondente à terceira idade, verificamos que o número de pessoas a viver sós está a aumentar, bem como o número de casais de idosos, o número de mulheres sem filhos com mais de 75 anos e, obviamente, o aumento do número de pensionistas. De facto, “os idosos não estão apenas a aumentar, estão também a envelhecer” (PESTANA, 2003:20 e esta questão prova que estamos perante a emergência de um novo público-alvo que, como qualquer outro, tem necessidades, desejos e expectativas; esta é, sem dúvida, uma oportunidade para as empresas de criarem produtos que promovam o bem-estar da população idosa e que vão ao encontro das suas carências e do seu estilo de vida.

É neste âmbito que a tecnologia se revela no que diz respeito à elaboração deste tipo de produtos que visa apoiar os séniores (+65 anos). Como tal, importa refletir acerca dos vários paradigmas de interação possíveis (linhas de comando, GUI, NUI e First User Interfaces), bem como as vantagens e desvantagens da sua utilização a curto/médio prazo. Deste modo, atrevo-me a afirmar que o futuro passará por uma comunhão entre vários paradigmas de interação, de forma a aglomerar as vantagens inerentes a cada um, o que certamente trará desafios de grandes dimensões tanto à área da Engenharia como do Design. Acredito que esta união se fará entre as NUI e as First User Interfaces, o que justificarei de seguida.

Nas linhas de comandos, o input tem de ser feito diretamente no computador e são requeridos comandos e sintaxe específicos; além disso, as ações e os objetos estão escondidos por detrás de comandos ocultos. Estas características levam-me a crer que este paradigma é absolutamente impossível de ser utilizado por idosos; em primeiro lugar, o único dispositivo em que as podem executar é num computador, o que diminui, de imediato, um vasto leque de possibilidades e de horizontes. Além disso, este é um objeto relativamente pesado e de transporte difíceis para pessoas de idade. Em segundo lugar, é preciso ter conhecimentos acerca dos comandos necessários e da sintaxe requerida, o que cria dificuldades ao nível da aprendizagem por parte do utilizador. Em terceiro lugar, a ocultação dos comandos torna este paradigma pouquíssimo intuitivo e de difícil adaptação, pelo que seria instantaneamente rejeitado por ser demasiado abstrato.

As GUI (Graphical User Interfaces) representam uma melhoria significativa no âmbito das interfaces de utilizador, sendo que surgiram após um longo período de contacto com estas. Assim, os objetos e as aplicações estão visíveis e a manipulação é feita através de ícones, controlos e mouse. Atualmente, este deve ser certamente o paradigma de interação com que os idosos mais convivem, pelo simples facto de ser aquele se encontra nos pcs e nos laptops. No entanto, é notória uma dificuldade na perceção das ferramentas e dos ícones constituintes da linguagem deste paradigma, pelo que os idosos têm dificuldade em associar as imagens e os comandos às funções das mesmas. Surge então um problema de aprendizagem e de adaptação que é agravado pela pouca escolaridade de uma percentagem significativa da população idosa na Europa. De facto, esta faixa etária foi educada numa época “em que não tiveram qualquer contacto nem experiência com TIC, onde palavras como ambiente de trabalho, ícones, janelas, rato e duplo clique não faziam parte do discurso” (BRITO, Rita).

Apesar das dificuldades a nível técnico e económico no que diz respeito à aquisição de material tecnológico, os idosos têm demonstrado interesse em fazer parte da tão falada sociedade de informação, assim como do mundo das TIC, descolando-se do rótulo de “info-excluídos”; em 2005, 75% da população com mais de 65 anos não tinha quaisquer competências a nível informático (DEMUNTER, 2006) sendo que um estudo realizado entre 2002 e 2007 em cinco países da União Europeia comprova que a utilização da Internet por partes dos idosos duplicou, passando de uma percentagem de 27% para 44% (SENIORWATCH, 2008). Em boa verdade, os idosos têm desfrutado da tecnologia que se encontra associada a este paradigma de interação, o que lhes tem trazido vantagens; de acordo com um estudo efetuado por Rita Brito, as principais tarefas levadas a cabo pelos séniores no computador são: visitar sites (85%), enviar e receber correio eletrónico (70%), conversar com familiares e amigos no chat (55%), jogar (50%) e ouvir música ou assistir programas e a vídeos (45%).

No mesmo estudo constatou-se que as maiores dificuldades que os idosos têm em aulas de informação são em comunicar pelo chat (50%), enviar um e-mail (32%), abrir os anexos nos e-mail (32%) e enviar um e-mail (32%). Estas correspondem também às tarefas que os idosos revelaram gostar menos de fazer no computador, talvez por ser aquelas que são mais complicadas para eles. É interessante observar que tarefas como escrever no computador ou usar o rato, bem como pesquisar informações na Internet são indicadas como sendo as tarefas mais fáceis de executar bem como as preferidas pela população sénior. Estes dados vão ao encontro das NUI (Natural User Interfaces), um paradigma que interage com gestos previsíveis, físicos e realistas, fazendo uso de capacidades aprendidas ao longo da vida, o que certamente é uma mais-valia para os idosos, ajudando-os a fazer associações de um modo muito mais intuitivo; além disso, o próprio conteúdo corresponde à interface o que diminui a camada de abstração inerente à tecnologia, facilitando a aprendizagem e a adaptação. É verdade que pode criar alguma estranheza aos idosos que estejam habituados a interagir somente com o computador; no entanto, penso que este paradigma, além de oferecer um leque mais vasto de oportunidades relacionadas com outros dispositivos como iPads, Tablets, iPhones e Smartphones, é muito mais interativo e acessível, moldando-se, de forma mais adequada, às reais necessidades do utilizador que, neste caso, correspondem ao desejo de uma vida com maior qualidade e com maior acesso à informação, maior autoconfiança, maior comunicação com amigos e família, menos solidão e mais atividades para ocupar os tempos livres (BRITO, Rita).

Recentemente surgiu um novo paradigma, algo revolucionário, que deitou por terra algumas estruturas que já tínhamos como certo no mundo da tecnologia e que, por isso, deixou bem claro que este é um terreno em que nada é tido como garantido. Designado por Firsr User Interfaces, permitem com que as pessoas interajam digitalmente com o mundo que as rodeia, ao mesmo tempo que o estão a experienciar; fornecem, automaticamente, informações sobre onde o utilizador se encontra e sobre quem o rodeia. Transformam objetos, localizações e redes de pessoas em elementos interativos, registando-se uma interação passiva através de um conjunto de componentes em contínua ligação. Ao nível da informação disponibilizada, esta é instantânea e relevante, baseando-se na localização do utilizador ou em quem está perto do mesmo. Deste modo, é possível concluir que este paradigma traz diversas vantagens à população idosa; assim, enquanto estão na rua podem ter acesso imediato a informações relevantes, tais como a localização da casa de familiares e amigos (com respetivas indicações de percurso), assim como a localização de sítios públicos de interesse tais como lojas que costumem frequentar, centros de saúde, farmácias, entre outros. Podem também saber onde podem apanhar um táxi ou horários de autocarros que lhes convenham, bem como quem se encontra perto deles tanto para estabelecer comunicação (e assim diminuir a solidão e/ou manterem-se ativos socialmente). Este paradigma pode ainda auxiliar os idosos em pequenas coisas do quotidiano tais como saber a meteorologia, fazer conversões (monetárias ou de outras medidas), saber as horas, relembrar algumas tarefas que tenham para fazer ou de medicamentos que tenham que tomar, telefonar a quem quiserem, mandar SMS, MMS, vídeos e/ou fotografias.

As desvantagens da utilização deste paradigma de interação prendem-se com a dimensão dos ecrãs dos dispositivos, que se tornam demasiado reduzidas comparativamente ao tamanho do pedaço de mundo que é suposto envolverem (“small screens, big world”); esta questão também ser problemática para os idosos com problemas de visão. Outra desvantagem – com peso considerável – é o facto de ser necessário o uso das mãos para segurar o dispositivo, o que pode causar vários transtornos a idosos que tenham problemas ortopédicos e/ou musculares, bem como para aqueles que têm de usar canadianas ou cadeiras de rodas para se deslocarem.

É então possível concluir que, apesar de o paradigma associado às linhas de comandos estar em declínio, das GUI estarem numa fase madura, das NUI estarem em expansão e das First User Interfaces estarem a emergir, é necessário tomar consciência de que ainda falta elaborar muitos testes com utilizadores e fazer mais investigações no âmbito da produção de aplicações para o público-alvo supra referido. Questões que versam fundamentalmente a acessibilidade, a intuitividade e a usabilidade devem imperar, sendo indispensável a participação de utilizadores que vão ao encontro das personas definidas (importância do ciclo de desenvolvimento do produto); só desta forma é que se poderá reunir o que as NUI e as First User Interfaces têm de melhor, o que certamente conduzirá à elaboração de aplicações de qualidade e que vão ao encontro dos objetivos, desejos e expetativas da população idosa, melhorando a sua qualidade de vida. Penso que o desenvolvimento de conteúdos que pretendam auxiliar nas coisas mais simples e básicas do dia-a-dia, como já referi anteriormente, serão bem-sucedidas. Ferramentas comunicacionais e de localização terão igualmente êxito, assim como aquelas que permitem o idoso manter-se ocupado, tal como jogos, o que é algo positivo para a sua saúde, tendo em conta que este tipo de ações pode prevenir doenças como Alzheimer. Aplicações que permitam à pessoa idosa lembrar-se de tarefas importantes para o seu bem-estar e para a sua saúde são também bem-vindas e, ainda neste âmbito, seria interessante, a meu ver, criar algo que permitisse ao idoso e/ou aos seus familiares registar as suas memórias de tempos que já passaram, memórias essas que certamente caracterizam um dado período histórico, o que daria um contributo significativo tanto para a família em que se insere, como para o seu país e até mesmo para a Europa; a Sociologia e outras ciências sociais e/ou económicas poderiam ter, também, material de estudo relevante.

Por fim, penso que este é um desafio profissional de bastante interesse, pelo que o pretendo encarar da melhor forma possível. É uma boa aposta nos tempos que correm, um novo público-alvo, com as suas exigências, necessidades e desejos que, a meu ver, é uma grande oportunidade tanto a nível social como a nível académico e empresarial. Os idosos têm o direito de usufruir do seu bem-estar pessoal como qualquer faixa etária; devem conquistar espaços sociais e devem encarar o envelhecimento como continuação e não como consequência do seu modo de vida anterior. Importa, assim, resgatar a capacidade criadora que há no ser humano (Farah et al, 2009).

Bibliografia:

BRITO, Rita, A Utilização do Computador e da Internet por Idosos, Instituto Superior de Ciências Educativas, II Congresso Internacional TIC e Educação. Disponível em: URL: http://ticeduca.ie.ul.pt/atas/pdf/358.pdf

FARAH, Rosa et al., Novas Tecnologias no Envelhecimento, Kairós Gerontologia, 2009. Disponível em: URL: http://revistas.pucsp.br/index.php/kairos/article/view/2670/1715

FERREIRA, Bruno, Envelhecer no Século XXI – Novos Paradigmas de Intervenção, O envelhecimento e a velhice nas sociedades modernas, Escola Superior de Educação de Torres Novas. Disponível em: URL: http://moodle.up.pt/pluginfile.php/39517/mod_resource/content/1/Envelhecer-Sec-XXI.pdf

UNIVERSIDADE SÉNIOR DE SETÚBAL (página consultada a 17 de Janeiro de 2013). “Novas Tecnologias ajudam a envelhecer melhor”, A Ovelha Perdida [em linha]. Disponível em: URL: http://uniseti.wordpress.com/2008/01/15/novas-tecnologias-ajudam-a-envelhecer-melhor/

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