1. a) Apple Maps no iOS6 – Evolução ou Desilusão?

“Art should be difficult. Art should make us question the world we inhabit. Art should take us into the unknown. iOS6 maps are art”. É com esta citação que Billy Wasik, editor da Wired Magazine, satirizou via twitter a nova aplicação da Apple lançada no dia 13 deste mês. Não foi o único; de facto, o novo sistema de mapeamento tem sido alvo de chacota em diversos sítios web, tais como blogues, fórums, páginas de humor, redes sociais e até mesmo em sites especializados.

O burburinho tem razão de ser – os utilizadores que atualizaram os seus iPhones e iPads com o ioS6 aperceberam-se que o novo sistema de mapas – que visa substituir o Google Maps e fazer-lhe frente – apresentava diversos problemas ao nível da reprodução de imagem e ao nível da localização geográfica. “It’s not na airport, it’s a farm!” – exclamou, indignado, Allan Shatter, ministro da justiça da Irlanda, que considera que a nova aplicação da Apple é perigosa.  Ao que parece, o ministro ficou surpreendido quando, ao testar o sistema de mapeamento, reparou que este identifica Airflield Garden – uma quinta numa zona residencial – como se esta se tratasse de um aeroporto, algo que é absolutamente inaceitável e que por certo comportará danos tanto para os habitantes da área como para os visitantes da região.

Ao tomar conhecimento destas efemérides, decidi investigar mais a fundo as deficiências ao nível da funcionalidade, da usabilidade e da Interação Humano-Computador desta nova “app”. Confesso que fiquei bastante surpreendida ao saber que a Apple tinha cometido um erro que à partida traz tantas repercussões negativas para a empresa tanto ao nível dos lucros bem como ao nível dos valores emanados pela mesma. É do conhecimento público que Steve Jobs examinava até à exaustão a funcionalidade e o design dos produtos antes de estes serem lançados. Será que a ausência do génio da maçã trincada começa a afetar visivelmente a produção da empresa?

O primeiro passo foi ir ao site da Apple. Constatei que o “Mapas” – nome da aplicação em Português – é soberbamente elogiado, o que já seria de esperar: “Totalmente criado pela Apple, o Mapas oferece modos de visualização interativos em 3D e o impressionante recurso Flyover. Tudo para esse app ser o serviço de mapas mais bonito e perfeito que existe.” Fiquei a saber que, ao contrário do Google Maps, esta aplicação usa um sistema vetorial que tem como objetivo deixar “o texto mais nítido, as imagens mais detalhadas e a panorâmica e o zoom mais rápidos e consistentes”. Ao que parece, o Flyover permite ver as “principais áreas metropolitanas de cima nos modos de visualização fotográfica e 3D interativo”. O Mapas permite ainda aceder às informações úteis sobre cada local onde o utilizador decidir colocar um pin – “Veja fotos, dê um toque para ligar para um número de telefone, obtenha endereços, encontre sites, confira as dicas e comentários do Yelp e até descubra promoções”.

Depois da leitura deste texto promocional apercebi-me da extrema preocupação com a componente estética, algo que certamente poderia distanciar este produto das aplicações criadas pela Google. Esta tomada de consciência catapultou o meu pensamento para Donald Norman e para o seu livro “Emotional Design”. Em boa verdade, a Apple apostou no design visceral ao recorrer a representações 3D ricas em detalhes e supostamente fiéis à realidade. De acordo com Norman, na obra supra referida, “ Visceral design is what nature does. We humans evolved to coexist in the environment of other humans, animals, plants, landscapes, weather, and other natural phenomena. As a result, we are exquisitely tuned to receive powerful emotional signals from the environment that get interpreted automatically at the visceral level”. Ao obsevar imagens obtidas através da exploração da aplicação, facilmente se nota que as cores estão mais saturadas e brilhantes, o que, segundo o mesmo autor, seduz o ser humano talvez devido à co-evolução de dependência mútua entre pessoas e plantas. Deste modo, o binómio homem-natureza é privilegiado, apelando aos sentidos, tornando a aplicação atraente, opulenta em formas e texturas que se encontram à distância de um toque – “Effective visceral design requires the skills of the visual and graphic artist and the industrial engineer. Shape and form matter. The physical feel and texture of the materials matter. Heft matters. Visceral design is all about immediate emotional impact. It has to feel good, look good. Sensuality and sexuality play roles”.

Após ter mergulhado nestas conceções, apercebi-me que o facto de a Apple continuar a apostar na facilidade das operações de zoom, nas panorâmicas e no recurso ao flyover é um bom exemplo de uma salutar interação homem-máquina, tendo em conta que permite ao utilizador aceder com rapidez e eficácia aos conteúdos pretendidos, oferecendo-lhe de bandeja uma sensação de poder, de realização pessoal, de quem tem o mundo na palma da mão.

Este sentimento de domínio conferido por um dos poucos pontos fortes do produto é, de imediato, abafado pela má qualidade das imagens 3D que é, sem dúvida, muito longe do expectável. Além de as paisagens aparecerem deformadas, é comum terem pouca resolução. Por vezes, áreas do mapa aparecem monocromáticas e outras sem cobertura fotográfica. Em baixo, é possível observar de perto alguns exemplos gritantes desta realidade (virtual?).

Modelos 3D de má qualidade (fonte: Exame Informática)
Imagens pouco definidas e sem cor (fonte: Exame Informática)
Imagens monocromáticas e com pouca resolução (fonte: Exame Informática)
Existência de ruas sobre a água (fonte: Exame Informática)
Zonas sem cobertura fotográfica (fonte: Exame Informática)
Áreas de terra onde deveria ser água (fonte: Exame Informática)

Além da pouca qualidade gráfica, são igualmente detetados erros e omissões desde moradas, monumentos ou estradas. Os bugs mais comuns são o aparecimento de ruas em cima da água e zonas de terra onde é suposto ser mar. Esta incrível falta de precisão deu origem a mensagens de descontentamento no fórum de suporte da Apple. O melhor exemplo será talvez o comentário do utilizador identificado como Ahlers: “Algo simples como a rota da minha casa para a escola leva você à residência de outra pessoa. Preciso criar pontos de interesse no mapa para que o programa acerte o caminho”. A questão levantada por Ahlers é gritante do ponto de vista da usabilidade e da IHC, sabendo que a necessidade de criar uma rede de interesses apenas para obter um trajeto chega a ser irreal nos dias de hoje.

Outro erro gravíssimo do Mapas é a dificuldade que este enfrenta na pesquisa de locais quando o utilizador não escreve o nome completo de um dado sítio; uma vez mais, surge a urgência de dar pistas baseadas em interesses (sistema de nuvem), o que é resulta nitidamente em pouca eficiência e má usabilidade. Com isto, lembro-me de uma citação de Jim e Sandra Sundfors: “We have overcomplicated the software and forgotten the primary objective”. Jeff Raskin, no livro “The Human Interaction”, reforça esta ideia afirmando que “não há desculpa para não manter simples as tarefas que são simples por natureza”. A propósito do sistema de nuvem, a Apple assinalou que o sistema de mapas é inteligente e que quanto mais pessoas o utilizarem, mais dados recolherá e mais preciso se irá tornar. A meu ver, estas declarações são absolutamente utópicas tendo em conta que nenhum utilizador vai recorrer a uma aplicação repleta de imprecisões na esperança de que esta se torne precisa – não é o consumidor que tem que corrigir os erros dos quais é vítima.

A ausência de informações sobre os transportes públicos é outro problema (e muito grave). Assim, o utilizador vê-se obrigado a consultar a Internet, algo mais demorado e dispendioso em vez de utilizar algo que é praticamente imediato na aplicação da Google. É igualmente notável a inexistência de um aplicativo de tráfego que facilitaria a vida àqueles que têm que passar por longas filas para poderem chegar a qualquer local numa grande cidade. De acordo com Raskin, “impedir que o utilizador espere desnecessariamente é um princípio de design óbvio e humano (…) São os utilizadores que devem acertar o passo de cada interação”. É do âmbito do senso comum que, para apurar qual é o tempo ideal de cada interação, é necessário fazer estudos com o público-alvo dos produtos, ou seja, com os seus potenciais consumidores. Deste modo, é possível concluir que a celeridade do desenvolvimento tecnológico tem aumentado, de forma exponencial, a competitividade, o que faz com que a qualidade dos produtos, nomeadamente ao nível do design de interação, se perca – “Dado o rápido desenvolvimento da tecnologia, mais os conflitos e compromissos dos objetivos de um design e mais as diferentes componentes (e áreas de estudo) que caracterizam IHC, sem dúvida alguma ela é uma área com ricos desafios (ROCHA; BARANAUSKAS, 2003)”.

Por fim e em suma, é possível concluir que, na criação do Mapas, foi conferida mais importância à estética do que à funcionalidade, algo deveras surpreendente, tendo em conta o histórico de produtos e serviços concebidos pela empresa. Em bom rigor, a Apple falhou no âmbito do design de comportamento, mais conhecido como behavioral design. Este conceito, segundo Norman, prende-se com o uso e com a performance do que é criado; a aparência não importa, mas sim os quatro componentes que devem ser parte integrante de um bom design de comportamento: função, compreensão, usabilidade e sentimento físico. Este último elemento encontra-se presente no Mapas – há o prazer da emoção, o gosto pela interação. O problema é que tudo o resto não é cumprido e este ponto cai num lago de frustração, afetando o humor do utilizador bem como a sua produtividade, pelo que é algo que deve ser evitado a todo o custo: “Use a machine tool in accord with its strengths and limitations and it will do a good job for you. Design a human-machine interface in accord with the abilities and foibles of humankind, and you will help the user not only to get the job done but also be a happier, more productive person” (RASKIN, 2005)

Deste modo, o design reflectivo ou reflective design é profundamento afetado, a par da empresa. Os valores defendidos pela empresa e emanados através dos seus produtos, como é o exemplo da fidelidade, foram abalados.

Neste momento, muitos falam da Apple, o que seria bom para a notoriedade da marca, pena é que não seja pelas melhores razões. A Google venceu este desafio; apesar de a Apple ter disponibilizado o Mapas para Android (para aumentar a concorrência), as suas várias falhas fazem com seja preterido. É relevante afirmar que a Google disponibiliza o seu serviço de mapeamento desde 2005 e que este possui fotos de ruas em 3000 cidades, o que assegura a precisão dos mapas. Será que a Apple vai querer a desforra? Será que vai deitar fora tempo e dinheiro em prol da correção das falhas da sua aplicação? É por isso que, segundo Ericsson e Magnus (1998), o design de interface deve constar da primeira etapa do desenvolvimento de um projecto. Tudo se resume a três palavras: funcionalidade, interação, usabilidade.

Termino este ensaio com uma citação de Raskin que, a meu ver, resume a problemática aqui abordada: “Creating an interface is much like building a house: if you don’t get the foundations right, no amount of decorating can fix the resulting structure. “

Fontes bibliográficas:

Norman, Donald. Emotional Design (Basic Books, 2004)

Raskin, Jef. The Human Interface: new directions for designing interactive systems (USA: ACM Press, 2005)

Rocha, Heloísa Vieira; Baranauskas, Maria Cecília Calani. Design e avaliação de Interfaces Humano-Computador (Campinas: NIED/UNICAMP, 2003)

APPLE, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “Mapas: olhar para ele ficou tão incrível como olhar em volta” [em linha]. Disponível em: URL: http://www.apple.com/br/ios/maps/

EXAME INFORMÁTICA, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “Os bugs dos mapas Apple do iOS 6” –  Sérgio Magno [em linha]. Disponível em: URL: http://exameinformatica.sapo.pt/noticias/software/2012/09/21/os-bugs-dos-mapas-apple-do-ios-6

TECHCRUNCH, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “Apple’s  iOS 6  Available  September 19: Facebook, Maps, Passbook, Photo Sharing, Siri And More”- Darrel Etherington [em linha]. Disponível em: URL: http://techcrunch.com/2012/09/12/apples-ios-6-facebook-maps-passbook-photo-sharing-siri-and-more/

TECNOLOGIA.COM.PT, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “iOS 6: serão os mapas da Apple uma desilusão?” – Rita Matos [em linha]. Disponível em: URL: http://www.tecnologia.com.pt/2012/09/ios-6-serao-os-mapas-da-apple-a-primeira-desilusao/

THE NEW YORK TIMES, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “Apple’s iPhone Update Leaves Out Google’s Maps” –  Brain X. Chen e Nick Windfield [em linha]. Disponível em: URL: http://www.nytimes.com/2012/09/20/technology/apple-ios-6-leaves-out-googles-maps.html?_r=1

THE SOCIABLE, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “That’s not an airport, it’s a farm – Irish Minister for Justice considers Apple’s iOS 6 Maps dangerous” [em linha]. Disponível em: URL: http://sociable.co/meme/thats-not-an-airport-its-a-farm-irish-minister-for-justice-is-not-happy-with-ios6s-apple-maps/

TVI 24, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “Apple diz que vai melhorar sistema de mapas”- Tvi24 [em linha]. Disponível em: URL: http://www.tvi24.iol.pt/tecnologia/mapas-apple-ios6-iphone/1377051-4069.html

VEJA, (página consultada a 21 de Setembro de 2012). “Serviço de mapas do iOS 6, da Apple, ensina rotas erradas” [em linha]. Disponível em: URL: http://veja.abril.com.br/noticia/vida-digital/servico-de-mapas-do-ios-6-da-apple-ensina-rotas-erradas

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